Dengue

Guia clínico de apoio à prescrição para Dengue

Guia de Prescrição Completo: Manejo Estratificado da Dengue (Doença Febril Aguda ao Choque Grave)

A dengue é uma doença dinâmica e imprevisível. Seu manejo eficaz e seguro depende de uma estratificação clínica precisa no momento da consulta, da hidratação agressiva e individualizada, e do veto absoluto a medicamentos que podem agravar o quadro. Este guia completo oferece um protocolo decisório baseado na classificação de gravidade da OMS, detalhando o que fazer e, crucialmente, o que NÃO fazer em cada fase.


1. Diagnóstico, Estratificação por Gravidade (OMS) e Sinais de Alarme

A conduta é totalmente guiada pela classificação do paciente em uma das três categorias da OMS. Esta avaliação deve ser feita a cada consulta e reavaliação.

Classificação Clínica da Dengue (OMS)

Categoria

Critérios Clínicos e Laboratoriais

Implicação para o Manejo

Dengue SEM Sinais de Alarme

• Febre + 2 critérios (náusea/vômito, exantema, dor, teste do laço positivo, leucopenia).

• MAS SEM nenhum dos sinais de alarme listados abaixo.

• Laboratorial: Pode haver queda progressiva de plaquetas, mas hematócrito estável.

Tratamento Ambulatorial. Foco em hidratação oral, controle sintomático seguro e orientação explícita para retornar diante de qualquer sinal de alarme.

Dengue COM Sinais de Alarme

• Dengue + QUALQUER UM dos seguintes sinais:

1. Dor abdominal intensa/contínua.

2. Vômitos persistentes (≥3/hora).

3. Acúmulo de líquidos (edema, ascite, derrame).

4. Sangramento mucoso significativo (gengiva, nariz).

5. Letargia/irritabilidade extrema.

6. Hepatomegalia dolorosa (>2cm).

7. Aumento progressivo do hematócrito com queda rápida de plaquetas.

Internação Hospitalar Obrigatória. Risco iminente de choque. Requer hidratação venosa vigorosa e monitoramento rigoroso (vital signs, diurese, hematócrito seriado a cada 6-12h).

Dengue GRAVE

• Choque por extravasamento de plasma (pressão arterial baixa, taquicardia, enchimento capilar lento >2 segundos).

• Sangramento grave (hematêmese, melena, hemorragia intracraniana).

• Comprometimento grave de órgãos (hepatite aguda grave, encefalite, miocardite).

Emergência Médica. Tratamento em UTI ou Unidade de Terapia Intensiva. Requer ressuscitação volêmica agressiva, suporte de órgãos e possivelmente transfusões.

📌 Diagnósticos Diferenciais Críticos (Síndromes Febris Agudas):

  • Chikungunya: Febre alta e artralgia/artrite intensa, debilitante e simétrica (mãos, punhos, pés), que persiste por semanas. Edema articular comum.
  • Zika: Febre baixa ou ausente, exantema maculopapular pruriginoso proeminente que inicia face e tronco, hiperemia conjuntival não purulenta, artralgia leve.
  • Leptospirose: Conjuntivite hemorrágica (sem secreção), dor intensa em panturrilhas, mialgia, icterícia, história de exposição a água/lama contaminada.
  • Malária: Febre com padrão cíclico (terçã, quartã), calafrios intensos, sudorese profusa, história de viagem para área endêmica.
  • COVID-19: Sintomas respiratórios (tosse, dispneia), anosmia/ageusia, pode ter diarreia.

2. Protocolos de Prescrição por Estratificação

TABELA 1: Manejo Ambulatorial para Dengue SEM Sinais de Alarme

Pilar do Tratamento

Protocolo Detalhado

Instruções e Objetivos

1. Hidratação Oral (AÇÃO MAIS IMPORTANTE)

• Soro caseiro (1L de água + 1 colher de sopa de açúcar + 1 colher de café de sal).

• Água de coco, sopas, bebidas isotônicas.

Meta: Ingerir mínimo 60-80 mL/kg/dia (ex: 3-4L para adulto). Sinal de sucesso: Diurese clara e frequente (a cada 4-6h).

2. Controle Sintomático SEGURO

• Dipirona: 500-1000 mg (adulto) ou 10-15 mg/kg/dose (criança), VO, a cada 6-8h, se necessário. Máx 3g/dia (adulto).

• Paracetamol: Alternativa. 500-1000 mg (adulto) ou 10-15 mg/kg/dose (criança), a cada 6h, máx 4g/dia.

ALERTA MÁXIMO: PROIBIDO AAS (Aspirina), Ibuprofeno, Diclofenaco, Naproxeno ou qualquer AINE. Aumentam risco de sangramento, gastrite e síndrome de Reye.

3. Orientação de Retorno (SAIBA QUANDO VOLTAR)

Lista clara dos Sinais de Alarme (ver tabela de classificação).

Instruir: "Se aparecer UM SINAL desta lista, retorne IMEDIATAMENTE ao hospital, a qualquer hora."

TABELA 2: Manejo Hospitalar para Dengue COM Sinais de Alarme

Componente do Tratamento

Protocolo Detalhado

Monitoramento Obrigatório

1. Hidratação Venosa AGressiva

Cristaloides Isotônicos: Ringer Lactato ou SF 0,9%.

• Fase de Ressuscitação: Bolus de 5-10 mL/kg em 1 hora. Reavaliar e repetir se necessário (até 2-3 bolus).

• Fase de Manutenção: Reduzir para 2-4 mL/kg/hora, ajustando conforme hematócrito, diurese e sinais vitais.

Vital Signs: Hora a hora inicialmente.

Diurese: Alvo > 0.5 mL/kg/hora (cateter vesical se necessário).

Hematócrito: Seriado a cada 6-12 horas. Atenção: Queda do hematócrito com instabilidade = sangramento oculto.

2. Controle Sintomático & Suporte

• Náusea/Vômito: Ondansetrona IV.

• Dor/Febre: Dipirona ou Paracetamol IV (evitar IM/SC por risco de sangramento).

• Correção Eletrolítica: (K+, Ca2+) conforme gasometria e bioquímica.

Hemograma completo diário.

Função renal e hepática (ureia, creatinina, TGO/TGP).

3. Transfusão de Hemocomponentes

• Sangramento Ativo Grave: Concentrado de hemácias + plasma fresco + plaquetas.

• Plaquetas < 20.000/mm³: NÃO transfundir profilaticamente. Só indicado para sangramento ativo ou procedimento invasivo.

Monitoração clínica rigorosa para sangramento. Evitar procedimentos invasivos desnecessários.

TABELA 3: Protocolo de Suporte Intravenoso Adjuvante ("Soro da Dengue")

Para pacientes em ambiente ambulatorial com dificuldade de hidratação oral ou em retorno hospitalar sem critérios formais de internação. NÃO substitui a hidratação venosa contínua em pacientes com sinais de alarme.

Componente

Medicamento/ Solução

Dose e Preparo

Fundamentação e Cuidados

Hidratação Base

SF 0,9%

500 mL

Reposição volêmica inicial.

Analgesia/Antipiresia

Dipirona

2g (2mL)

Controle de dor e febre via parenteral. Infundir lento.

Suporte Metabólico

Complexo B

1 ampola (2mL)

Reposição de vitaminas hidrossolúveis, que podem ser depletadas.

Suporte Antioxidante

Vitamina C

1g (5mL)

Papel teórico no estresse oxidativo. Evidência clínica limitada.

Administração

Misturar todos os componentes na bolsa de SF 0,9%. Infundir por via IV lenta, em 1 a 2 horas. Dose única, reavaliando necessidade de internação.

Observação: Eficácia clínica deste "coquetel" é variável. O benefício principal é a hidratação e a dipirona IV. Monitorar para reações adversas.


3. O que PODE e o que NÃO PODE fazer: Diretrizes Absolutas

🚫 MEDICAMENTOS CONTRAINDICADOS (NUNCA USAR)

Medicamento

Classe

Motivo da Contraindicação

Ácido Acetilsalicílico (AAS, Aspirina)

Antiagregante plaquetário

Risco de sangramento grave (disfunção plaquetária) e Síndrome de Reye (em crianças).

Ibuprofeno, Diclofenaco, Naproxeno, Cetoprofeno

Anti-inflamatório Não Esteroidal (AINE)

Aumentam risco de sangramento (inibem agregação plaquetária), gastrite/úlcera hemorrágica e insuficiência renal aguda.

Corticosteroides Sistêmicos (Prednisona, Dexametasona)

Imunossupressor

Não trazem benefício, podem mascarar sinais de infecção bacteriana secundária e agravar hiperglicemia/retenção hídrica.

Antibióticos de Rotina

Vários

Dengue é viral. Antibióticos só se houver evidência clara de infecção bacteriana secundária.

✅ MEDICAMENTOS e CONDUTAS PERMITIDAS (COM RESALVAS)

Medicamento/Conduta

Instruções de Uso Seguro

Resalvas

Dipirona (Metamizol)

Via de escolha para dor/febre. Usar dose efetiva mínima e intervalo máximo.

Raríssimo risco de agranulocitose. Em crianças, preferir via oral. Evitar via IM/SC (dor, sangramento, abscesso).

Paracetamol

Alternativa à dipirona. Respeitar dose máxima diária (4g para adultos).

Hepatotoxicidade em overdose. Menos potente que dipirona para dor intensa.

Ondansetrona

Antiemético de escolha para vômitos persistentes.

Pode prolongar intervalo QT em altas doses.

Hidratação Venosa

Fundamental em casos com sinais de alarme. Usar cristaloides.

Risco de Sobrecarga Hídrica: Monitorar sinais de edema pulmonar (dispneia, estertores), especialmente na fase de recuperação.


4. Monitorização, Critérios de Alta e Seguimento

Parâmetro

Frequência (Dengue com Sinais de Alarme)

Alerta / Ação

Sinais Vitais

Hora a hora (fase crítica), depois 2-4h.

Choque: PA convergente, taquicardia, enchimento capilar >2s → Bolus de cristaloide.

Diurese Horária

Através de cateter vesical ou medida rigorosa.

< 0.5 mL/kg/h por 2h consecutivas: Aumentar taxa de infusão de cristaloide.

Hematócrito

A cada 6-12h na fase crítica, depois diário.

Aumento progressivo + instabilidade: Mais bolus de líquido. Queda súbita + instabilidade: Suspeitar de sangramento oculto (investigar).

Contagem de Plaquetas

Diária.

< 20.000/mm³: Evitar IM, trauma, avisar sobre sinais de sangramento. Não é indicação isolada para transfusão.

✍️ Critérios de Alta Hospitalar (TODOS devem estar presentes):

  1. Ausência de febre por ≥ 48 horas.
  2. Melhora clínica significativa (apetite retornando, bem-estar).
  3. Hematócrito ESTÁVEL sem necessidade de fluidos IV.
  4. Contagem de plaquetas em tendência de ascensão (geralmente > 50.000/mm³).
  5. Diurese adequada com hidratação oral.

5. Por que Este Guia Estratificado é Essencial para a Prática Segura?

✅ Tomada de Decisão Baseada em Evidência: Utiliza a classificação da OMS, adotada pelo Ministério da Saúde, que é validada para reduzir mortalidade ao direcionar os recursos (ambulatório vs. hospital) para quem realmente precisa.

✅ Foco na Prevenção do Choque: A ênfase absoluta na hidratação agressiva e monitorada como única intervenção que modifica o curso da doença na fase crítica é o cerne do manejo moderno da dengue.

✅ Proteção do Paciente Contra Iatrogenia: A lista explícita e destacada de medicamentos proibidos previne uma das causas mais comuns de complicações evitáveis, educando tanto o médico quanto o paciente.

✅ Praticidade Clínica: Oferece fluxos claros para o ambulatório e para o hospital, com metas objetivas de monitoramento (diurese, hematócrito), transformando um quadro complexo em ações mensuráveis e seguras.