Conjuntivite

Guia clínico de apoio à prescrição para Conjuntivite

Guia de Prescrição: Diagnóstico Diferencial e Manejo das Conjuntivites (Bacteriana, Viral e Não Infecciosa)

A vermelhidão ocular (hiperemia conjuntival) é um sinal comum a diversas condições. Distinguir entre conjuntivite bacteriana, viral e as formas não infecciosas (alérgica, irritativa) é uma habilidade clínica essencial, pois o manejo e o prognóstico são radicalmente diferentes. Este guia expandido oferece um fluxo decisório claro e protocolos específicos para cada uma dessas apresentações.


1. Diagnóstico Clínico e Diagnósticos Diferenciais Sistematizados

A anamnese detalhada (início, sintomas associados, história de alergia, uso de produtos) e o exame físico minucioso são a base do diagnóstico. A tabela abaixo resume os achados chave para diferenciação.

TABELA 1: Diagnóstico Diferencial das Principais Conjuntivites

Característica

Conjuntivite Bacteriana

Conjuntivite Viral (Adenovírus)

Conjuntivite Alérgica

Conjuntivite/Irritação Não Infecciosa (Química/Traumática)

Secreção

Purulenta/Mucopurulenta (amarelo-esverdeada, abundante).

Aquosa/Serosa (clara, aquosa). Pode ser mais mucosa em fases tardias.

Aquosa/Mucosa (clara, filante). Nunca purulenta.

Variável: aquosa (por irritação) ou mucoide.

Prurido (Coceira)

Ausente ou leve.

Ausente ou leve.

PREDOMINANTE E INTENSO.

Ausente ou sensação de queimação/ardor.

Dor/Desconforto

Sensação de areia/corpo estranho.

Sensação de areia/corpo estranho, pode haver dor leve.

Ardência ou leve desconforto.

Ardor, queimação ou dor proporcional ao agente agressor.

Adenopatia Pré-Auricular

Rara.

Frequente e Palpável (característica importante).

Ausente.

Ausente.

Início e Curso

Agudo, piora em 1-2 dias.

Agudo, altamente contagioso, pico em 3-5 dias.

Agudo (sazonal) ou crônico (perene). Melhora com afastamento do alérgeno.

Imediato após exposição ao agente (fumaça, cloro, produto químico, trauma).

Outros Achados

Pálpebras coladas ao acordar. Hiperemia difusa.

Fotofobia pode estar presente. Hemorrhagias subconjuntivais petequiais são sugestivas.

Edema palpebral (inchaço), papilas gigantes na face interna da pálpebra (visível apenas na eversão).

Hiperemia difusa, possível edema químico. Em trauma: pode haver corpo estranho visível ou lesão.


2. Protocolos de Prescrição por Etiologia

O tratamento é direcionado pela causa. O uso inadequado de colírios antibióticos em casos virais ou alérgicos é ineficaz e pode causar complicações.

TABELA 2: Protocolos Terapêuticos Específicos

Tipo de Conjuntivite

Objetivo do Tratamento

Esquema Terapêutico Farmacológico

Medidas de Suporte e Higiene (Fundamentais em TODOS os casos)

Conjuntivite BACTERIANA

Eradicar a infecção.

1. Antibiótico Tópico (Escolher um):

• Tobramicina 0,3%: 1-2 gotas, 4-6x/dia, por 5-7 dias.

• Ciprofloxacino 0,3%: Esquema intensivo (2h/4h) por 7 dias.

• Azitromicina 1,5%: 1 gota 2x/dia por 3 dias (alta adesão).

• Lavagem com SF 0,9% antes do colírio.

• Compressas frias para alívio.

• NÃO usar lentes de contato.

• Higiene das mãos rigorosa.

Conjuntivite VIRAL

Aliviar sintomas; prevenir infecção bacteriana secundária.

NÃO usa antibiótico.

Sintomático (se necessário):

• Lubrificantes sem conservante: (Hialuronato, CMC) para alívio do ardor.

• Anti-inflamatórios não hormonais tópicos (AINEs): (Cetorolaco, Diclofenaco) para dor/fotofobia sob supervisão médica.

• Compressas frias são a principal medida para alívio.

• Isolamento relativo (toalhas separadas, evitar aglomerações) por 10-14 dias (período de contagiosidade).

• Higiene das mãos ainda mais crítica.

Conjuntivite ALÉRGICA

Controlar a reação imunológica e o prurido.

1. Anti-histamínicos + Estabilizadores de Mastócitos Tópicos: (Olopatadina, Cetotifeno) 1-2 gotas 2x/dia.

2. Corticoides Tópicos Leves: (Loteprednol, Fluormetolona) APENAS sob prescrição oftalmológica, para crises agudas graves.

• Evitar o alérgeno (poeira, pólen, animais).

• Lavagem ocular com SF para remover alérgenos.

• Compressas frias para alívio imediato do prurido e edema.

Irritação/Conjuntivite QUÍMICA Leve

Lavar e acalmar o tecido.

1. Lavagem Copiosa Imediata com SF 0,9% ou água corrente limpa por 10-15 min.

2. Lubrificantes Intensivos: (Hialuronato, Pomada lubrificante) para promover cicatrização epitelial.

• Afastamento do agente causal.

• Uso de óculos de proteção se reexposição for necessária.

✍️ Instruções Padronizadas para o Paciente (Ênfase na Diferença):

  • Para TODOS: "Lave sempre as mãos antes e depois de tocar nos olhos. Use uma gaze ou algodão diferente para cada olho para limpar."
  • Se BACTERIANA: "Complete todo o curso do antibiótico, mesmo que melhore antes. A secreção deve diminuir em 48h."
  • Se VIRAL: "Este é um vírus, como um resfriado no olho. Antibióticos não funcionam. O ciclo dura de 7 a 14 dias. Use as compressas frias para aliviar. É muito contagioso: não compartilhe toalhas, evite apertos de mão e trabalho/escola por pelo menos 5 dias."
  • Se ALÉRGICA: "O colírio anti-alérgico é para prevenir e tratar a coceira. Use-o conforme prescrito, mesmo nos dias sem sintomas, se for crônico. Compressas frias ajudam muito."
  • Se QUÍMICA: "Lave o olho imediatamente com muita água ou soro. Se a queimação ou vermelhidão persistir após a lavagem, busque avaliação."

3. Ajustes, Encaminhamentos e Cenários Especiais

Cenário Clínico

Conduta Recomendada

Fundamentação

Suspeita de Ceratite (Úlcera de Córnea)

Dor intensa, fotofobia incapacitante, visão turva, mancha branca na córnea.

Encaminhamento OFTALMOLÓGICO URGENTE (dentro de 24h).

É uma emergência ocular. Requer cultura, antibioticoterapia tópica fortificada e frequente (ex.: horária) e monitorização estrita para evitar perfuração e perda visual.

Conjuntivite Viral Grave (Ceratoconjuntivite Epidêmica)

Encaminhamento oftalmológico. Pode requerer acompanhamento para manejo de sequelas (subepiteliais).

Forma altamente contagiosa e sintomática, podendo causar opacidades corneanas transitórias que afetam a visão por semanas a meses.

Alergia Ocular Grave (Vernal/Atópica) ou não responsiva

Encaminhamento ao oftalmologista ou alergista. Pode exigir imunomoduladores tópicos (Ciclosporina, Tacrolimus) ou terapia sistêmica.

São formas severas que podem levar a danos corneanos (úlcera de escudo) e necessitam de manejo especializado.

Conjuntivite Neonatal (no recém-nascido < 1 mês)

Encaminhamento URGENTE ao pediatra/oftalmologista. Nunca tratar empiricamente.

Pode ser causada por N. gonorrhoeae (urgência) ou C. trachomatis, requerendo antibioticoterapia sistêmica específica além da tópica.

Uso de Corticoides Tópicos

ALERTA: Nunca iniciar sem avaliação oftalmológica. Uso prolongado ou inadequado pode causar glaucoma e catarata.

Os riscos superam os benefícios no manejo de rotina pelo clínico geral. São armas potentes restritas ao especialista.


4. Por que Esta Abordagem Diferenciada é Fundamental?

✅ Evita o Uso Inadequado de Antibióticos: Impede a prescrição desnecessária para quadros virais ou alérgicos, combatendo a resistência bacteriana e efeitos colaterais.

✅ Direciona o Cuidado e o Aconselhamento de Forma Precisa: O conselho dado a um paciente com conjuntivite viral altamente contagiosa ("fique em casa") é diferente do dado a um alérgico ("evite o pólen").

✅ Previne Complicações Oculares Graves: A identificação dos sinais de alerta (dor, fotofobia, baixa visão) e o encaminhamento oportuno para o oftalmologista podem salvar a visão em casos de ceratite ou uveíte.

✅ Oferece Alívio Sintomático Eficaz: Reconhece que para a maioria das conjuntivites virais e alérgicas, as medidas de suporte (compressas frias, lavagem) são tão ou mais importantes que a farmacoterapia, empoderando o paciente no próprio cuidado.